Incentivando a leitura e escrita

Gosto muito de incentivar a leitura das minhas filhas, e resolvi colocar nesse post algumas atividades que costumamos fazer.


Minha filha escreveu mais de 100 páginas de um livro autoral aos 8 anos.

Minha outra filha, com 5 anos, observando a irmã, também escreveu seu próprio livro, mesmo sem ser alfabetizada.


Tudo começou com os passeios nas bibliotecas....


Bibliotecas Públicas

Eu adorava a biblioteca da escola.

Frequentava tanto a biblioteca da faculdade que consegui livre acesso ao acervo, um privilégio que só os professores tinham.

Quando me tornei mãe, comecei a frequentar os espaços infantis das bibliotecas públicas.

O acervo disponível é encantador.

Há vários livros que não estão mais à venda e que são dificílimos de ter contato.

Veja mais sobre as bibliotecas públicas da cidade de São Paulo.

Consulte o acervo das bibliotecas.


Descobri uma biblioteca que uma das funcionárias reservava um horário por semana para ler para as crianças.

Eu e minha filha íamos sempre.

Principalmente quando eu engravidei e era um pouco cansativo ficar sentada lendo.

A funcionária amava ler. Minha filha amava ouvir. E eu amava poder deitar um pouco e descansar a lombar.

Elas liam mais de 20 livros todas as vezes.

Minha filha escolhia alguns.

A funcionária oferecia outros.

Quando minha segunda filha nasceu, ficou bem desafiador ir para a biblioteca.

A mais velha queria que eu lesse para ela, e a mais nova queria escalar todas as prateleiras possíveis.

Nessa época, comecei a criar histórias…

Foto da Ana com um ano de idade em cima de uma prateleira da biblioteca pública. Há uma prateleira vazia embaixo. A Ana sentada na segunda prateleira ao lado dos livros, e uma terceira prateleira acima da Ana com muitos livros.

Histórias próprias

Como eu não conseguia sentar para ler, comecei a inventar histórias. Colocava personagens novos em histórias conhecidas.

Colocava personagens dos desenhos animados dentro das histórias dos livros.

E perguntava para elas o que poderia acontecer na sequência.

Conseguia dar atenção para as duas crianças ao mesmo tempo.

Mas era exaustivo lavar louça com uma nenê dormindo amarrada nas costas enquanto contava histórias para a mais velha.


Livros sem palavras

As bibliotecas possuem muitos livros infantis que não tem palavras.

Eu escolhia alguns deles para que a mais velha pudesse contar para a mais nova.

Não era sempre que elas topavam, mas era lindo quando isso acontecia.

Com o tempo, expliquei que elas poderiam ler todos os livros dessa forma.

A mais velha passava o dedinho em cima do texto, como se estivesse lendo, mas usando a própria narrativa. A menor ficava encantada ouvindo as histórias. Elas tinham 4 e 2 anos nessa época.

Foto de uma biblioteca com um trenzinho de madeira cheio de livros e um balcão roxo ao centro da foto com diversos livros. Ao centro da foto, abaixo, ocupando um pequeno espaço, é possível ver os olhos e cabelos da Ana.

Presentes de aniversário


Nas festas de aniversário das crianças, eu sempre deixava claro que não gostaria que elas fossem presenteadas com brinquedos.

Geralmente as pessoas não presenteavam ou me consultavam antes: canetinha, massinha, suco de uva, livros, cadernos de desenho, roupas, fantasias, frutas..

Elas adoravam ler o livro que ganhavam de presente.


Fotos e diário

Imprimo com frequência fotos dos passeios que fazemos.

Quando elas eram pequenas, sentávamos juntas e ficávamos relembrando o que tinha acontecido naquele dia da foto.

Parece algo corriqueiro, mas é uma forma muito próxima de se criar uma narrativa com uma memória afetiva.

A atividade era essa mesma: sentar e conversar sobre as fotos.

Às vezes, ficávamos em silêncio, cada uma olhando para sua foto.

É muito importante perceber o tempo das crianças.

Se naquele momento elas queriam apenas olhar, era isso que elas teriam.

Depois passei a escrever relatos do que fazíamos.

Era muito cansativo parar tudo para sentar e escrever. Eu não fazia todo dia.

Às vezes se passavam dez dias sem escrever.

Muitas vezes elas não participavam. Eu ficava frustrada, escrevia rapidinho e desejava mais conexão na próxima tentativa.

Algumas vezes elas pediam para ler o que estava escrito. E me lembravam que estava faltando coisas.

Eu as convidava a escreverem junto comigo da próxima vez porque três pessoas lembram mais do que uma sozinha.


Jeito certo de falar e jeito certo de escrever

Uma única vez minha filha perguntou se ela estava falando do jeito certo uma determinada palavra.

- Não filha, está errado.


Ela me olhou brava. Muito brava. Agradeço o rápido pensamento que me veio.

- Me desculpe, quem errou fui eu. Você tem 6 anos, e crianças de 6 anos falam igual crianças de 6 anos. Você falou a palavra do jeito que você consegue. Então sim, está certo. Você falou do jeito certo para uma criança de 6 anos. Você quer saber se é desse jeito que os adultos falam?

Ela sorriu. Estava satisfeita.

- Sim. Como os adultos falam?

- Os adultos não têm mais 6 anos, né? Faz tempo que a mamãe teve 6 anos. E eu já falei essa palavra várias vezes. Então, a mamãe, e muitos outros adultos falam essa palavra dessa outra forma.

Não lembro qual era a palavra.

E foi a única vez que eu disse que o que ela produzia era errado.


Eu realmente acho que elas não estão erradas na forma que falam e escrevem.

Fizemos até uma live sobre isso, mas eu não achei o link.

Não tem jeito certo de aprender. O legal é aprender.

O importante para mim é elas amarem aprender e saberem que estarei disponível para tirar dúvidas.


Texto próprio

Um dia, elas foram presenteadas pela avó com dois pequenos cadernos.

Cadernos simples: capa branca e dura e com linhas azuis claras.

A avó sempre presenteava elas com livros, cadernos, canetas e atividades.

A mais velha tinha 8 anos e a mais nova 5.

Não sei o que aconteceu nesse dia, mas ao pegar o caderno da mão da avó, minha filha de 8 anos disse que era um livro, e não um caderno.

Chegamos tarde em casa, ela pegou um lápis e começou a escrever. Páginas e páginas.

- Filha, só mais essa página e vamos deitar, tá bom?

- Ai mamãe, queria escrever mais.

- Então escova os dentes, coloque o pijama e pode voltar a fazer isso. Assim a mamãe não te interrompe mais.

Deitei com a mais nova e adormeci. A mais velha parou de escrever e se deitou ao meu lado, me acordando. Ela mexia para um lado, mexia para o outro. E eu dormindo e acordando a todo momento.

- Estou me irritando, eu preciso dormir sem ser acordada. Por que você se mexe tanto?

- Minha cabeça está cheia de histórias. Estou com medo de dormir e esquecer.

- O que te ajuda? Quer escrever mais?

- Quero.

- Você pode ficar lá na sala, sentada e escrevendo. Não é pra fazer mais nada além disso. Quando você terminar, faça xixi e deite com cuidado para não acordar quem estiver dormindo. Eu vou dormir. Funciona assim pra você?

- Eu vou poder escrever o quanto eu quiser?

- Sim.


Não sei quanto tempo se passou, mas num momento da noite, eu fui espia-la. Ela colocou o abajur em cima da mesinha e estava escrevendo super concentrada.

Na manhã seguinte, ela acordou e voltou a escrever.

Me mostrou o que estava fazendo e perguntou se estava escrevendo certo.

- Você quer saber se você está escrevendo igual os adultos escrevem ou se está escrevendo igual uma criança de 8 anos?

- Igual criança.

- Deixa eu ler então.. Peraí que vou analisar bem isso aqui.

Passei os olhos naquela obra literária. Havia erros gramaticais, de concordâncias, não tinha parágrafos, não tinha acentuação..

- Nesse trecho aqui você quis dizer que a personagem passava por tal situação? E fez esse desenho ao lado para ilustrar a narrativa?

- Foi sim.

- E nessa outra página, os personagens estavam um pouco irritados com tal situação. E o desenho ao lado mostra o que os chateou.

- Isso mesmo.

Fiz isso por uns 3 minutos.

- Parece que eu entendi tudo o que você quis escrever. Você acha que está certo ou errado?

- Você não vai falar que está errado, né? Eu sei que não está do jeito dos adultos. Mas está certo?

- Não está do jeito dos adultos. Até porque, quem escreveu foi uma criança, né? A mamãe não escreveria assim. Eu escrevo de um jeito e você de outro. Errado está quem não escreve, né?

Ela sorriu. E voltou a escrever.

A irmã, de 5 anos, também começou a escrever naquele momento.

Ela fazia ondinhas imitando a letra cursiva. A única coisa que ela sabia escrever era seu nome. E, no meio das ondinhas, apareceu um ANA.

Ela quis ler a história para mim.

Com muito orgulho, ela ia passando o dedinho nas ondinhas, inventando uma história na hora. No momento que ela passou o dedinho no ANA ela parou por alguns segundos, e rapidamente nomeou uma das personagens de ANA.


Essas obras literárias participaram de um sarau online que promovia o dia do livro.

Os links das leituras são esses: leitura do livro da de 8 anos, e leitura do livro da de 5 anos.


Revisão do livro

Depois de mais de um ano, comecei uma revisão do livro da minha filha com então 9 anos.

Usando a máquina de escrever, datilografamos juntas alguns trechos do livro. Dessa vez usamos uma linguagem mais próxima do que estamos acostumados a ler nos livros e revistas.

Ensinei sobre os diálogos, travessão, dois pontos, distância do parágrafo…

Eu datilografava e ela desenhava.

Depois de uns dias, olhei o caderno da escola e ela estava reproduzindo o que estava aprendendo comigo em suas lições de sala.


Foto de uma biblioteca onde as paredes são de vidro e do lado de fora tem muita natereza. É a biblioteca do centro de cultura negra na região do jabaquara.

Poema

Um dia, estávamos lavando louça juntas e conversando.

Minha filha de 9 anos começou a falar um poema:

- Se o mundo fosse das crianças, gira-gira, balança e sorvete ia ser todo dia.

- Uau. Quero isso aí também. Pode ter adulto nesse mundo das crianças. - respondi animada.

- Depende do adulto. Você pode. Se o mundo fosse das crianças, cair só de paraquedas.

- Fez sentido pra mim.

- Mamãe, posso escrever para não esquecer.

- Pode sim, mas acho que pode ser mais rápido você mandar por áudio no whatsapp.


Ela secou a mão e ficou dez minutos mandando áudios para ela mesma.

Ouvi os audios e datilografei num papel bonito.

Queria que ela visse o formato da poesia no papel, além de ter contato com a grafia correta das palavras.

Pedi para ela desenhar sobre o poema, mas ela não quis.

Eu insisti e ela desenhou qualquer coisa para eu parar de incomodá-la.


Umas semanas depois, recebi um email com um curso para escritores da Casa das Rosas. O curso era online e voltado para adultos. Perguntei para a educadora se teria um curso assim voltado para crianças. Ela disse que nunca tinha pensado a respeito. Falei do poema da minha filha e ela sugeriu que eu publicasse no mural virtual. Aqui está o link do poema.

Fizemos uma revisão, e deixamos somentes os trechos que a autora achava que faziam mais sentido. Algumas estrofes tinham um contexto com o nosso cotidiano e realmente não seriam entendidos por outras pessoas.


Gibis

Hoje em dia, minhas filhas com 9 e 6 anos, gostam muito de ler gibis. A de 6 anos está sendo alfabetizada. Ela passa horas lendo as imagens. Algumas vezes ela pede para eu ou a irmã lemos para ela. Ela consegue identificar muitas letras.

Eu não acho o gibi o mais adequado. Acho as falas curtas, acredito ser mais interessante frases maiores. Mas entendo que para elas faz sentido ler esse tipo de conteúdo agora. Elas sentem afinidade com os personagens e empatia com as histórias.

Pegamos os gibis na biblioteca. O acervo é imenso, com gibis recém lançados e antigos.


Espero que essas atividades inspirem vocês.


Leitura na Rua de Lazer

Eu e uma amiga estamos com um projeto voluntário de mediação de leitura para crianças na rua de lazer.

Muitas crianças, com pouco contato com livros, se encantam com os livros.

O projeto é lindo e potente, porém está parado esperando apoio financeiro.

Se você puder contribuir, faça um pix para ocupamae@gmail.com e coloque na mensagem "livros na rua de lazer.


Live

Em 19 de julho de 2022, fiz uma live contando sobre todas essas atividades.

A live está no instagram e no youtube.



7 visualizações0 comentário