A Greve das Mães

Conto 1 - Cotidiano

Era uma vez uma cidade onde todas as mães resolveram fazer greve.

 

Todo dia ela faz tudo sempre igual.

Opa, faz não, fazia.

Desde o começo da greve das mães, ela se permitiu dormir sozinha e acordar com tranquilidade.

Lavar o rosto com calma.

Tomar café em silêncio.

Usar o banheiro...

É o terceiro dia seguido que ela senta na privada e consegue fazer cocô em paz. 

Não pediram nada. 

Ninguém a apressou.

Ela viu uma mensagem das crianças. 

Elas celebravam ver filmes o dia todo e comer pizza pela terceira noite seguida. 

Obviamente, ela se preocupava e sabia que as crianças mereciam outros cuidados.

Mas ela estava de greve.

Greve de ser mãe.

 

Ela colocou a roupa de rua, vestiu sua máscara e caminhou até o ponto de ônibus.

Um pai com duas crianças também estavam no ponto. Enquanto o pai mexia no celular, as crianças abriram a mochila e tiraram algumas coisas pra fora.

O pai começou uma ligação. 

O ônibus chegou. 

O pai explicava para o chefe que atrasaria novamente. 

Eles embarcaram.

O livro, o pacote de bolacha e o estojo ficaram.

 

O ônibus dela chegou. 

Era a primeira vez na vida que ela embarcava num ônibus dirigido por uma mulher.

A motorista conversava com a cobradora. Era o primeiro dia de trabalho delas. Os antigos funcionários não estavam conseguindo chegar no horário, pois não tinham com quem deixar as crianças, já que a escola estava fechada e as respectivas mães estavam em greve. Assim como as avós.

A motorista diz num suspiro:

- Eu também estou na greve das mães. Minha filha está com 3 anos. 

A cobradora diz também estar em greve e feliz em estar conseguindo ir trabalhar.

 

As ruas estão vazias. A conversa está interessante, mas ela precisa descer no próximo ponto.

Ela chega mais cedo no trabalho e percebe uma grande confusão.

Alguns funcionários faltaram e tem muito serviço a ser feito antes que o mercado abra para os clientes.

O chefe, com um bebê pequeno chorando amarrado ao colo, pergunta se ela pode trabalhar imediatamente, e que haverá um bom retorno financeiro pelas horas extras. 

Ela aceita.

 

Dez dias já se passaram desde o início da greve.

O mercado está cada vez mais vazio. Poucas pessoas estão fazendo compras. 

Ela continua cobrindo a falta de alguns funcionários que tiraram férias ou pediram demissão.

Após o dia de trabalho, ela tem feito yoga numa praça com outras mães.

Todas de máscaras e mantendo o distanciamento.

Os protocolos de segurança são seguidos à risca por elas. 

A aula termina. Enquanto ela se organiza para ir embora a pé com outras mães, ouve algumas conversas.

Duas mães foram promovidas. 

Uma pediu aumento e ganhou. 

Uma diz que a vizinha, que estava de greve, apanhou do marido.

Algumas reclamam da fila para achar um horário no salão.

Parece que o prefeito pediu uma ausência de 3 dias para conseguir organizar a própria casa.

A vice-prefeita, que está no comando, também é mãe. Por conta da greve, ela consegue ficar mais horas no trabalho. Enquanto os demais secretários precisam sair mais cedo para cuidar das crianças. 

 

Hoje ela acordou pensativa.

Faz um mês que a greve começou.

Ela conseguiu um novo cargo no mercado e recebeu um bom aumento de salário.

O chefe precisou estender as férias, pois a funcionária que estava cuidado do filho dele pediu um aumento salarial e ele não aceitou.

 

Ela estava triste: sentia falta dos filhos e sabia que eles não estavam sendo cuidados do jeito que mereciam. As crianças reclamavam de dor de barriga e de dor no dente. Chegavam atrasadas nas aulas online e não tinham com quem tirar dúvidas.

 

O grupo de yoga da praça cresceu tanto que precisou se estender por outras quatro praças. Ela estava se sentindo ótima com as aulas. Fazia anos que ela não cuidava de si mesma. E muitas outras mães relatavam o mesmo.

 

As organizadoras da greve faziam dois ou três vídeos por dia. Elas usavam um canal no YouTube chamado Ocupa Mãe, que falava de política e maternidade.

Um dos informes foi a abertura da terceira delegacia da mulher, onde só mulheres trabalhavam. 

Infelizmente, algumas mães estavam sendo vítimas de violência. Os maridos perderam os empregos e as mães estavam conseguindo independência financeira. Muitas delas, que eram vítimas de violência doméstica antes do começo da greve, começaram a sair de casa e a não remunerar mais os pais das crianças. 

 

As organizadoras da greve estavam conseguindo muitos benefícios para as mães. 

Havia hotéis pela cidade para abrigarem mulheres vítimas de violência

Havia um amplo apoio jurídico e psicológico para as mães que buscavam se separar, abrir um novo negócio ou formalizar sua empresa. 

A redução geral de jornada de trabalho para 5 horas diárias, sem redução salarial, foi muito comemorada. 

Além de restaurantes gratuitos e escritórios públicos grudados nas escolas para que as mães pudessem trabalhar perto dos filhos.

Foi criada também uma bolsa para mães cientistas que valia quatro vezes mais que antes e ainda pagava um bônus para estudos relacionados à amamentação, leite materno e ciclos hormonais das mulheres.

 

As organizadoras da greve sabiam que muitas mães estavam levando comidas - escondidas - para os filhos ou dormindo amamentando. Outras faziam reuniões a portas fechadas com a escola das crianças. 

A orientação era seguir a greve, mas não havia problema em dar uma flexibilizada. Não estava fácil manter a greve sabendo que as crianças estavam sendo prejudicadas.

 

A cidade estava um caos.

Havia crianças soltas pela rua.

Os abrigos e orfanatos estavam lotados. Algumas crianças dormiam na escola.

Havia um alto índice de desemprego e depressão dos pais.

 

O mercado que ela trabalha estava cada vez mais vazio. Grande parte das vendas estava sendo feita para restaurantes que compravam em grandes quantidades.

Ela estava estudando com outras mães a ideia de abrirem seu próprio mercado. Elas comprariam direto de mães produtoras e venderiam para restaurantes gerenciados por mães.

 

Dois meses de greve.

A greve continuava de maneira oficial, mas agora mais flexível.

Ela estava vendo as crianças dois dias da semana.

E estava conseguindo manter o yoga, estudar sobre a abertura da nova empresa, se dedicar a um novo relacionamento amoroso e ainda fazer uma reserva financeira.

Um agradecimentos especial às mulheres abaixo por tamanha inspiração:

- À Indra pelas aulas maravilhosas de yoga na praça e no museu. As aulas continuam online e super recomendamos. Fale com a Indra e apoie o trabalho de mães.

- Às mães cientistas da Parent in Science que mostram a importância de se apoiar pesquisas feitas por mães. 

- À empreendedora Fernanda, proprietária da marca Kasulo, que faz sapatos confortáveis e que se preocupa com todos que fazem parte do processo de fabricação.

 

- À mãe Anamaria, proprietária da marca Byana, que faz roupas para mulheres pensando no bem estar e conforto, e que emprega diversas mães no processo de fabricação.

 

- À Leila D pelo seu potente projeto "Da Terra ao Prato" que incentiva a conexão entre as mulheres produtoras do campo com as mulheres consumidoras na cidade.

Gostou desse conto?
Nos apóie financeiramente.

Faça um Pix para ocupamae@gmail.com e apóie a participação política das mães.

Conto escrito por Carolina Borges, e revisado por Mariana Specian.

Conto inspirado nas respostas enviadas pelo formulário e em conversas entre a autora e revisora.